ENTRELACE v2.0 por Vanessa Ruiz

um espaço para falar do mundo real juntando coisa com coisa, colocando os dedos uns entre os outros 
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*Sinteses Cotidianas*

 

A vaca que deu o que falar

Aproveito esta manhã tranquila para contar esta história para vocês.

Era quarta-feira, dia do fatídico jogo entre Palmeiras e São Caetano. Por volta das 18h, a cidade começou a ser assolada por (mais) um temporal. Ali na região do Palestra Itália, o vento era ainda tão forte quanto a água, a ponto de o meu carro começar a chacoalhar assim que o estacionei. Gramado alagado, falta de luz também pintaram por ali.

Eis que, uma hora depois -- um pouco mais, um pouco menos -- resolvo abrir a cortina de vez para olhar a chuva. Foi aí que apareceu ela, a estrela da quarta-feira: a vaca da Cow Parade que boiava. Pedi para o namorado me ajudar a olhar direito, aquilo era muito bizarro para ser verdade. Mas era. E aí, tirei a foto* que fez tanta gente simpatizar com a vaquinha e chorar a incapacidade desta capital de nos proteger de tanta água.

Foram incontáveis os cliques, comentários e retweets deste link aqui. Até a @vacainterativa entrou na dança.

Mais uma hora, a água baixou e a vaca ficou. Não por muito tempo: o pessoal da CET e algumas pessoas que passavam tiraram-na do meio do caminho*. Mas a Princesa da Primavera (foi assim que sua criadora, Alzira Fragoso, a batizou) ainda passou bons minutos na rua.

Na quinta-feira, um colega aqui do Terra, Osmar Portilho, mandou a foto* feita por Amanda Lourenço do resgate da Princesa. Ela finalmente sairia do posto da esquina da Rua Turiassu com a Av. Sumaré para ser cuidada.

No meio de tanto caos na cidade, no futebol, pelo menos uma cabeça foi salva.

*As fotos estão neste slideshow, na ordem em que citadas no texto.

     

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Finesse latina

Quatro ou cinco rapazes andando na rua. Um deles: "Cuidado, hein, não vai ficar molhadinha". Eu quis responder: "Com você passando por mim, jamais!". Antes que as palavras saíssem da minha boca, lembrei que ele estava falando apenas, única e exclusivamente, da chuva. Longa vida às nossas calçadas.

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Garota-enxaqueca

Sentada no sofá, de olho nas maravilhas tecnológicas do viciante iPhone, a visão começou a ficar distorcida. Deve ser fome, pensei. E cochichei no ouvido do namorado pra ver se ele resolvia adotar a fome como sendo dele, já que aquela era a casa dos sogros. Levantamos, fomos à cozinha. Pão, frios, manteiga, margarina, requeijão, suco, leite. Tudo o que eu comia e não comia, suficiente para matar a fome.

Comi o primeiro sanduíche. Estranho: a metade direita da visão, do olho direito, tremia como quando você olha acima de asfalto quente. Ali, eu já sabia -- memória pra coisa desagradável nunca falha: era a aura. Nome bonito, coisa horrível. "Aura" só dá quando a enxaqueca vem em seguida. O pânico foi inevitável: enxaqueca, de novo, não! Há pelo menos dez anos não tinha uma crise destas. Não sei até que ponto o desespero ajudou a agravar a situação, mas eu não tinha muito o que fazer. A dor de cabeça veio. Dirigi até a farmácia para comprar remédio, já que o pé do namorado andava quebrado. Não adiantou.

Daí em diante, era só esperar piorar e a carona chegar para ir até o hospital. Aura, dor. Os próximos elementos eram vômito e desconforto interminável. A crise começou às 16h, cheguei ao hospital às 18h30 e saímos de lá às 23h30. Preferi voltar até perto de casa para ir a um pronto-socorro conhecido, em que um e até dois acompanhantes são permitidos na enfermaria (faz uma diferença inquestionável).

Mais de dois litros de soro, pelo menos quatro remédios diferentes na veia. Evito a alopatia, mas tem horas em que não dá. E a crise de enxaqueca é uma delas. Nestes casos, prática de esportes, yoga, comida natural, etc, etc, etc servem é como prevenção.

Lição do dia: nem sempre fica claro mas, urbanoides, o stress existe; e ele invariavelmente encontra meios bem desagradáveis de vir à tona.

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Até amanhã!

Daqui a pouco o ano é novo e este será o terceiro "post de réveillon" na vida do ENTRELACE, agora "v2.0". Por pouco a data não passa batida, sem post algum: as reflexões foram tantas que adiei até o último minuto a escolha do que escrever. Vamos com umas poucas linhas, então, bem pessoais. De retrospectiva do ano, a da TV Globo já foi bem feita, né, não? (Embora tenham deixado o Rubinho de lado, mas fiquem as notícias pra lá por um instante.)

2009 foi ano de coisas muito boas em todos os aspectos. Em dezembro, deixei o Sistema Globo de Rádio, assunto que não esteve no blog porque simplesmente não cabia. Mas como continuo recebendo mensagens, inclusive por aqui, aproveito a data para contar rapidinho a vocês que, embora possa parecer o cont rário, a demissão foi para o bem. E tudo o que vier a partir de agora estará certamente envolto por esta energia mais leve e pelo desejo de construir algo(s) novo(s). Sem ansiedade, as coisas vão tomando seu rumo. Muito obrigada (mesmo!) pelas manifestações.

Pensei em escrever sobre o quanto é mágico trabalhar com esportes, sobre os amores que descobri no ano que passou ou sobre a validade de aproveitar datas simbólicas para realmente recomeçar. Coisas mais pragmáticas passaram pela minha cabeça também, como o 2009 surpreendente e o 2010 incrível que a Fórmula 1 pode viver (aliás, sobre isso, deem uma olhada neste texto aqui), o fiasco do mundo no que diz respeito ao meio-ambiente, o boom de algumas redes sociais, etc etc etc. Mas sobre estes assuntos, conversamos todo dia. Então, que sigamos assim.

Mais uma vez obrigada, agora a todos que passaram o ano ao meu lado através do blog e do Twitter, muitos dos quais sem nunca terem me ouvido no ar (olha aí: mais um sinal de que a internet se apresenta não só como saída, mas como caminho a ser trilhado).

Que as nossas últimas festas de 2009 sejam incríveis, com a boas energias necessárias para irmos com cuidado e com tudo em 2010!

Abraços e até amanhã,
Vanessa Ruiz

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Pensando em não pensar

O último post aqui no ENTRELACE foi escrito há dez dias, mas parece que foi há muito mais. Talvez por conta do tanto de coisas que aconteceram e que não aconteceram neste meio tempo – deve ser o clima de final de ano. Este post é de um tipo que não faço há tempos, daqueles que ficavam na gaveta "Sínteses Cotidianas" na primeira versão deste blog; ela guardava crônicas e pensatas, e espero que renasça em 2010.

Enquanto a “silly season” do futebol pega um fogo morno – as histórias se repetem... – com especulações mil e empresários tentando enfiar seus atletas nas manchetes pensando em conseguir algo melhor para ele (o empresário) em 2010, eu aproveito o fato de estar fora de uma redação para ficar só observando. Boa escola, a observação.

Apesar do desânimo que às vezes bate depois de tanto observar, creio no bom jornalismo: ele existe, é duro de achar e exige esforço para ser bem feito. Apurar uma história dá um trabalho danado. Há um tanto de incautos por aí sendo pegos pelas (se rendendo às) exigências da velocidade e das redações enxutas, ou simplesmente se entregando à ânsia mais ingênua pelo furo jornalístico. Uma boa pauta, no mais das vezes, pode desentortar um pedaço do caminho: se for apresentado um bom projeto, bom mesmo!, e seu chefe não te liberar ao menos de parte das tarefas diárias para levá-lo a cabo, talvez você deva trabalhar fora do horário ou trocar de chefe, mas não desista do jornalismo bem feito, não.

Ditar regras é uma chatice e parece que é isso que estou fazendo. Talvez esteja, mesmo, aproveitando esta virada para contar a vocês um pouco, bem pouco, de como enxergo a profissão: se está fácil ser jornalista, é porque acionaram o modo automático. Qualquer um de nós que está há um pouquinho mais de tempo na área sabe fazer o feijão-com-arroz, “colocar a matéria na forma”. No entanto, ser jornalista não pode ser fácil, não tem que ser fácil. Já experimentamos tantas vezes: quanto maior o esforço, melhor o resultado e maior a satisfação e recompensa, independentemente de qual for a motivação. Se tiver alma de repórter, é melhor dar um tempo, repensar, do que viver o marasmo do feijão-com-arroz.

Quem chegou aqui e prestou atenção no título do post, está querendo me perguntar o que cargas d'água ele tem a ver com o texto (não precisa abrir o Formspring...). Na verdade, quando comecei a escrever, minha ideia era falar sobre ontem: pela segunda ou terceira vez na vida fui fazer uma “massagem relaxante” e me peguei pensando, pensando loucamente, sem parar. Meu caso de vício em pensamento é bem crônico, como deve acontecer com a maioria de nós, a ponto de eu achar meditação o máximo e não conseguir nem por um segundo parar de pensar: “Mas eu não estou vendo ponto azul. Nossa, como esse mantra é legal. Será que eu estou cantando certo? Será que eu já parei de pensar? Deixa eu ver se me concentro no preto que vem quando a gente fecha o olho. Ai, meu preto tá meio branco, cheio de estrelinha. Nossa, eu não paro de pensar. A massagem dessa mulher é boa, né?”. Bom, pelo menos meu pensamento foi galho que enverga, a ponto de mudar completamente o caminho deste texto sem trava alguma.

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O que é o quê: jornalismo e crowdsourcing no #apagao

O apagão de 2009, passado na noite de ontem, foi uma boa mostra das benesses e limites do conteúdo colaborativo, e de qual a diferença entre relatar o que se vê e fazer o que chamamos de "jornalismo".

Logo que teve início a queda de transmissão de energia elétrica em áreas de pelo menos onze estados do Brasil mais Paraguai, às 22h13, começaram a pipocar no Twitter os relatos de pessoas em todo o país informando a "falta de luz" em suas regiões. Ficou claro, imediatamente, que não se tratava de um problema no centro de São Paulo, por exemplo, onde eu estava naquele momento, na redação da CBN/Rádio Globo. José Roberto Toledo (ou @zerotoledo) avaliava lucidamente que “o Twitter foi a lanterna noticiosa do #apagao: mais ágil e até mais preciso do que muitos meios tradicionais”. Como plataforma, funcionou melhor do que a de muitos sites, que saíram do ar, e de emissoras de televisão que, mesmo funcionando com gerador, não tinham como fazer a programação chegar a seu destino por motivos óbvios. Sobraram os celulares que não saíram do ar, laptops com bateria ligados direto na rede e os rádios de pilha.

Enquanto alguns twitteiros com grande número de seguidores faziam sua parte retransmitindo as mensagens que recebiam vindas de locais diversos, notava-se também que alguns deles repassavam o que era dito em entrevistas ouvidas no rádio e na televisão, quando tinham acesso a ela. 

Este post é simples e terminará quando encerrar este parágrafo. Não discuto aqui o Twitter, mas o uso do conteúdo colaborativo. Ele ajuda a investigar, mas não é a investigação em si. Fazer jornalismo é apurar e não só repetir, repassar, retwittar, que seja. Procurar as autoridades, especialistas que ajudassem a explicar ao público o funcionamento de determinados sistemas; obter e analisar respostas cabíveis e não qualquer explicação chapa-branca que @usina_itaipu poderia dar, por exemplo; orientar a população a partir disto tudo não é tarefa fácil. Requer preparo, discernimento, experiência. É possível que, com as mídias sociais, mais e mais pessoas se interessem pelo jornalismo e queiram aprender a fazê-lo, o que seria extremamente positivo. Entretanto, é bom saber que ligar o computador e sentar de frente a ele, esperando que os dados caiam no seu colo para simplesmente reproduzir conteúdo, seja ele gerado pela população ou por veículos tradicionais, é conteúdo colaborativo, é mídia social, mas, sozinho, não é jornalismo.

PS: Ainda acredito que o crowdsourcing atingirá níveis muito mais extensos de troca de informação, mas é preciso que um número maior de pessoas esteja online e, mais do que isso, participando ativamente da rede, gerando conteúdo e não só consumindo. 

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O famigerado Painel 4 do #mediaon: vazio de conteúdo, mas não de todo inútil

Eu queria explicar o que é o MediaOn, um seminário de jornalismo online em sua terceira edição, queria falar sobre o público do evento (muitos estudantes, poucos jornalistas) ou sobre o quanto a maioria dos convidados defende o conteúdo aberto na internet e a transferência para o formato mobile, queria até mesmo postar este vídeo aqui no no blog para vocês assistirem, usado na apresentação de Marcos Foglia, do Clarín:

Mas, no final das contas, vou falar é sobre o Painel 4, que teve a seguinte composição de mesa (tirada do site do MediaOn):

PAINEL 4 17H30 ÀS 19H

JORNALISMO SEM INTERMEDIÁRIOS - Twitters e blogs aproximam fonte e consumidor de informação

• Qual o impacto, no jornalismo, das ferramentas que permitem que as fontes da informação entrem em contato direto com o público?
• Casos de sucesso de uso de blogs e twitter por jornalistas
• O que significa, para a indústria da comunicação, não-jornalistas se tornarem distribuidores de informação?
• Como as empresas lidam com blogs e twitter de seus profissionais

Debatedores:
Danilo Gentili – Repórter do CQC, programa de jornalismo e humor da TV Bandeirantes 
Altino Machado – Blog da Amazônia, de Terra Magazine 
Camilla Menezes – Twitter de Mano Menezes

Mediador:
Marion Strecker - Diretora de conteúdo do UOL

No dia anterior ao do evento, um tweet que eu publicava -- e que você pode ler no fim deste post -- fazia referência à "falta de liga" da qual esta mesa poderia sofrer: Altino Machado, homem de trabalho sério e experiências densas ligadas à Amazônia e ao Acre, junto com o humorista Danilo Gentili e a ghost-writer do twitter de Mano Menezes, técnico do Corinthians.

Que o meu tweet não seja tido como um pré-conceito, por favor, mas como uma opinião pós-análise dos currículos dos convidados.

Pois bem, dito e feito: as falas versaram muito sobre temas pontuais ligados às atividades específicas de cada um e pouquíssimo sobre conceitos de novas mídias que poderiam ter sido debatidos. Pontuo algumas coisas que me chamaram a atenção, não necessariamente interligadas e tampouco em ordem de importância:

Camilla Menezes: "Os jornalistas seguem o twitter do Mano para encontrar um diferencial porque sabem que dali vai sair algo (...) Desde abril, já foram feitas 40 reportagens citando frases do Mano no Twitter". 
Para, para, para tudo. Camilla está falando sobre "jornalismo de aspas", aquele em que o repórter não se dá o trabalho de apurar qualquer coisa e apenas reproduz, na reportagem, frases tiradas de entrevista ou outra fonte (Twitter, neste caso). Ou seja, visando este tipo de repórter ou veículo, o twitter de Mano Menezes representa uma forma eficaz de controle da exposição já que a assessoria sabe que qualquer coisa que poste ali, infelizmente, será reproduzida em massa ocupando espaço e dando ao jornalista -- repórter ou editor -- uma desculpa para não correr atrás de algo de maior relevância: "Já temos notas suficientes para hoje. Prepare alguma coisa para amanhã de manhã". Ou então: "Vamos subir estas aspas do Mano amanhã de manhã e basta".

A incoerência de Danilo Gentili
Quando questionado sobre um tweet preconceituoso que teria escrito e logo apagado, Danilo respondeu: "Apaguei porque eu quis, o twitter é meu". Depois de ouvir este libelo curto e grosso em prol da liberdade de fazer o que quiser com seu perfil, me surpreendeu de forma que mal consigo expressar as investidas de Danilo contra Camilla -- e isto independe do meu juízo de valor sobre eles serem "legais" ou não. Danilo questionou o uso de scripts para incrementar o número de seguidores e o fato de Camilla ser ghost-writer do pai. 

Concordo e me causa estranheza uma ghost-writer ser convidada para defender a ausência de intermediários na comunicação entre fontes/personagens e público em geral, o que é um problema da organização do evento. O que me causa estranheza maior, com o perdão pela total vulgaridade, é ter visto Danilo Genitli "cagando regras" no palco do MediaOn para cima de Camilla.

Não vou me estender, meu ponto já está posto: as mídias sociais são abertas, cada um faz delas o uso que bem entender. Quer usar script? Use. Quer pedir a alguém que escreva por você? Peça. Quer usar como ferramenta de marketing? Fique à vontade. Quer fazer piadas idiotas? Pode fazê-las. A liberdade é tanta que só te acompanha quem gosta do que você faz. 

Sendo assim, por favor, criadores de regras inúteis, deixem a internet em paz.

(Ironias da vida. Acabo de receber um tweet com o texto: "hey If you want to get alot of followers check out http://xxxx". Conto para vocês que não sou adepta dos scripts ou de qualquer coisa fake, na vida virtual ou real.)

Sigo para o sétimo painel do MediaOn, agora. Mas ainda quero falar sobre o preconceito sofrido por Altino Machado, que veio para comprovar sua fala na tarde/noite de ontem.

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Pensamentos em papel e caneta: esperando o tempo passar no #mediaon

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O absurdo, a vergonha, um GP e um helicóptero

Os dias que passaram foram de folga, como serão os seguintes até que eu volte a trabalhar em São Paulo x Barueri e na transmissão do GP de Abu Dabi (daqui do Brasil). Nem por isso deixaram de ser perturbados por registros estarrecedores e as consequências do que acontecia no final de semana passado, enquanto celebrávamos o GP do Brasil no autódromo de Interlagos.

Lembro-me de ter sentido uma espécie de culpa -- vergonha, talvez -- ao entrar no ar logo após o boletim da repórter que cobria a guerra no morro carioca. Minha função era comentar -- e o fiz com certa empolgação -- as chances que Rubens Barrichello tinha de vencer a corrida. Os assuntos definitivamente não se encaixavam.

Ali, a âncora era obrigada a virar a página e mudar de tema, o que sinceramente espero que os ouvintes não tenham feito por muito tempo. Dada a bandeirada final, era hora de deixar o "circo" de lado para sentir o incômodo da ausência do "pão" e seus reflexos. Quando digo pão, não falo de comida apenas, mas de educação, saúde, segurança -- lista que qualquer recém-alfabetizado seria capaz de fazer.

Naqueles dias, postei alguns comentários no Twitter sobre vergonha de ser parte deste tipo de Brasil e recebi de volta algo que não me surpreendeu: "Muda de país, então". Pensamento medíocre, como se tivéssemos só duas opções: vivermos nauseados pelo cheirume que exala nosso lixo social (mas sorrindo, é claro, pois o que é o brasileiro senão um ser feliz?), ou sair correndo para viver um suposto conto de fadas europeu, australiano, americano que seja.

Perdão, caríssimo autor do recado. Por mais que minha nacionalidade seja dupla (espanhola também), rodar o mundo como faço com prazer só me leva a perceber o quanto sou brasileira, tenha eu vergonha ou não, tenha orgulho ou não. Sendo assim, não me resta outra coisa a fazer senão tudo o que puder para mudar o nojento status quo deste país. Não posso te dizer como, não te dou uma lista de tarefas. O que eu e muitos outros sabemos (há mais de 500 anos, talvez?) é que assim, não pode ficar. É incorreto, é injusto, é egoísta. A única coisa que me desanima, de quando em vez, é a ciência de que o egocentrismo está em cada esquina por aqui. Noção de povo falta e muito.

Nesta sexta-feira, o jornalista Francho Barón publicou um belo texto sobre uma triste experiência no jornal El País. Em espanhol, você lê aqui. Em português, aqui.

PS: Este post versa sobre a guerra que explodiu no sábado, dia 17 de outubro de 2009, quando um helicóptero da Polícia Militar foi abatido (?) por traficantes do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro. Este blog torce para que a sensação do "absurdo" não seja enterrada.

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