ENTRELACE v2.0 por Vanessa Ruiz

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Jornalismo

 

Twitter para o bem e para o mal

O que se passa no Haiti, todos nós já sabemos. O tremor de 7 graus na escala Richter cujo epicentro está a mais ou menos 15km de Porto Príncipe aconteceu no dia 12, derrubou a capital e cidades do interior, pode ter matado até 100 mil pessoas e tem sido seguido por outros tremores um pouco mais suaves. O mais importante: com frequência intensa -- e que muitas vezes descamba para o exagero emotivo  -- os meios de comunicação nos têm feito saber do sofrimento e da necessidade de suporte.

Infelizmente, ao mesmo tempo em que serve para dar vazão a muita coisa boa, a internet também é canal de proliferação de falta de caráter e imbecilidades em geral. Entrem neste perfil do Twitter, mas com cuidado (e só coloco o link aqui porque acredito na boa fé dos leitores): @LisandroSuero. Ler um único post é suficiente para saber que a boa intenção deste cara é exclusivamente com ele mesmo -- e é bem torta, ainda por cima. Escrita em caixa alta, pontos de exclamação e uma série de tweets com seu número de telefone e e-mail, convidando as pessoas a entrevistá-lo e procurá-lo. Seu chamariz são fotos impublicáveis da catástrofe alheia, as sobras das agências, que nenhum (ou quase nenhum) veículo divulga.

Talvez nem todos que passam por aqui saibam como funciona o processo de escolha de imagens dentro de uma emissora, jornal, revista ou site. As agências de notícias enviam uma série de fotos para todos os veículos que assinam o serviço; há ali desde as mais poéticas até as mais bizarras, sanguinolentas, assustadoras. Cabe aos editores escolher aquelas que acreditam que seu público deve acessar. No meio disso tudo, uma regra tácita manda que leitores e telespectadores sejam poupados de ver a destruição física do ser humano, seus destroços.

Sigo a regra não por imposição, mas porque entendo que um corpo degradado mexe com instintos muito primários, incomoda e não serve para nada. Resumindo: ver uma cabeça cortada ao meio, um rosto desfigurado não é necessário para motivar alguém a querer ajudar o Haiti -- bastam as informações que chegam. Veja um exemplo aqui. As fotos do NY Times sensibilizam o suficiente sem mostrar pessoas decepadas. E para tirar esta conclusão, nem foi preciso falar do puro prazer mórbido que muita gente tem em ver este tipo de coisa.

O pior é notar que talvez este último grupo esteja se sobressaindo sobre os demais: acessei o tal perfil há uma semana e havia cerca de 500 seguidores. Agora, são mais de 700. Eu sinceramente espero que este post não sirva para fazer a leva crescer.

UM ADENDO antes mesmo de publicar: É preciso trabalhar com limites -- éticos, não necessariamente legais (censura, no caso). Sou a favor de algo que ajude. E só.

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TJ-DFT, Hugo Chávez, a censura, a coceira e a janela

sexta-feira, 31 de julho de 2009, 19:25 | Online

Justiça censura Estado e proíbe informações sobre Sarney

Gravações em áudio proibidas revelaram ligações do presidente do Senado com os atos secretos da Casa

BRASÍLIA - O desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), proibiu o jornal o Estado de S. Paulo e o portal Estadão de publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor, mais conhecida como Boi Barrica. O recurso judicial, que pôs o Estado sob censura, foi feito pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

O pedido chegou ao desembargador na quinta-feira, no fim do dia. E na manhã desta sexta-feira, 31, a liminar havia sido concedida. A decisão determina que o Estado não publique mais informações sobre a investigação da Polícia Federal.

Em caso de descumprimento, o desembargador Dácio Vieira determinou aplicação de multa de R$ 150 mil por "cada ato de violação do presente comando judicial", isto é, para cada reportagem publicada. O pedido inicial de Fernando Sarney era para que fosse aplicada multa de R$ 300 mil.

O advogado do Grupo Estado, Manuel Alceu Afonso Ferreira, vai recorrer da decisão. "Há um valor constitucional maior, que é o da liberdade de imprensa, principalmente quando esta liberdade se dá em benefício do interesse público", observou Manuel Alceu. "O jornal tomará as medidas cabíveis."

O diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, afirmou que a medida não mudará a conduta do jornal. "O Estado não se intimidará, como nunca em sua história se intimidou. Respeita os parâmetros da lei, mas utiliza métodos jornalísticos lícitos e éticos para levar informações de interesse público à sociedade", disse.

Diálogos íntimos

Os advogados do empresário afirmam que o Grupo Estado praticou crime ao publicar trechos das conversas telefônicas gravadas na operação com autorização judicial e alegaram que a divulgação de dados das investigações fere a honra da família Sarney.

"Uma enxurrada de diálogos íntimos, travados entre membros da família, veio à tona da forma como a reportagem bem entendeu e quis. A partir daí, em se tratando de família da mais alta notoriedade, nem é preciso muito esforço para entender que os demais meios de comunicação deram especial atenção ao assunto, ‘leiloando’ a honra, a intimidade, a privacidade, enfim, aviltando o direito de personalidade de toda a família Sarney", argumentaram os advogados que assinam a ação - Marcelo Leal de Lima Oliveira, Benedito Cerezzo Pereira Filho e Janaína Castro de Carvalho Kalume, todos do escritório de Eduardo Ferrão.

As gravações revelaram ligações do presidente do Senado com a contratação de parentes por meio de atos secretos. A decisão faz com que o portal Estadão seja obrigado a suspender a veiculação dos arquivos de áudio relacionados à operação.

 

O ponto deste post é simples, não vai muito adiante disto: independentemente de que tipo de jornal seja o Estadão, decisões como esta assustam. Os padrões democráticos sob os quais nasceu boa parte dos jornalistas que estão na linha de frente das redações não condiz com um ato como este. A esperança é que eles (nós) estejam(os), neste momento, se (nos) coçando, se (nos) incomodando, sofrendo, reclamando, fazendo algo contra isto.

Se vira moda...

Hugo Chávez criticava a prisão dos jornalistas venezuelanos pelo governo golpista de Honduras há alguns dias e hoje já aplaude a regulamentação dos "delitos midiáticos" que levariam à prisão na Venezuela, conforme projeto apresentado na Assembleia Nacional. Parte do texto: "toda pessoa que divulgar através de um meio de comunicação notícias falsas que ocasionem a grave alteração à tranquilidade pública será castigada com uma pena de prisão de dois a quatro anos", etc. Por "falsas", fique à vontade para entender "contra o governo chavista".

Por extensão...

Boa parte da imprensa esportiva já estaria presa se aqui fosse a Venezuela e o projeto tivesse passado. A tranquilidade pública dos torcedores vive sendo alterada gravemente durante a janela de transferências para o exterior. Quem a inventou, aliás, devia tê-la pego toda para si.

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