Posterous theme by Cory Watilo

TAGS: Jornalismo

Um caso de pedofilia. Quais são os limites do "conta-clique"?

No fim do mês de agosto, descobri um álbum no site Vírgula, parceiro do UOL através de uma notícia sobre a polêmica em torno de anúncio de lingerie que usavam crianças como modelo. O Vírgula, optou por criar um álbum com as oito fotos, que ganhou vida própria e virou um monstro -- não tenho palavra melhor para descrever.

No dia em que descobri o álbum, fiz um chamado no Twitter para que as pessoas me ajudassem a denunciar principalmente por conta dos comentários agressivamente pedófilos que proliferavam por ali. Denunciei através de um link do próprio UOL que me foi passado por um tuiteiro (https://denuncia.uol.com.br/) e fui ao site da Polícia Federal em seguida (http://denuncia.pf.gov.br/), categorizando o caso como "pornografia infantil". Tem ainda o Ministério Público (http://www.prsp.mpf.gov.br/noticias-prsp/aplicativos/digi-denuncia) para estes casos.

Alguns minutos depois, os comentários de teor pedófilo foram apagados pelo administrador do site. Tenho três printscreens guardados. Não vou colocá-los aqui porque entendo que não há necessidade, mas garanto que são nojentos.

O álbum continua no ar no Vírgula com o título "Lingerie para Crianças" e data de publicação de 17/08/2011, às 8h00. Há ainda pelo menos um comentário com claro teor pedófilo, embora utilize uma espécie de "código interno" dessa turma doente -- talvez por isso ainda não tenha sido apagado. O último comentário, revoltado com as manifestações de pedofilia, data de 21/09/2011, ou seja, publicado há uma semana. Na notícia em si, o mais recente é de 24/09/2011.

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A coisa está feia... e o "average American" sabe

O orgulho ainda resiste, mas parece que o encanto não está mais lá. Foi esta a sensação que tive ao conversar com um bunch de average Americans durante a passagem pelas Catskill Mountains de Nova York, no meio do mês.

Os efeitos do aumento do número de americanos vivendo abaixo da linha da pobreza, muito embora a pobreza deles equivalha à nossa classe C, estão se espalhando feito água de enxurrada e uma escara está sendo aberta na autoestima de boa parte da população.

Não me lembro exatamente quando foi que eu ouvi a expressão "average American" pela primeira vez. Deve ter sido em notícia sobre algum estudo; isso é termo de pesquisa, mas ela soa de uma forma que me atrai. "Brasileiro médio" não tem o mesmo efeito (o certo seria "mediano", mas aí é que a coisa desceria pelo barranco sócio-semântico de vez). Enfim. É a conversa com um destes "average Americans" que conto neste post.
 

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Palavras e o porquê de aprender línguas

NARIZ DE CERA (leitura recomendada, é claro):

Aconteceu muita, muita coisa por aqui hoje. Fica quase impossível relatar tudo -- nem tanto pela quantidade de conteúdos, mas porque cada tema é capaz de gerar um debate extenso. Escrever sobre cada um deles levando em conta apenas uma perspectiva seria pouco. Mas, de repente, pode ser que isso seja tudo o que eu consiga fazer. Veremos.

Antes, um pensamento que veio enquanto eu assistia a uma masterclass para os estudantes que estão por aqui, uma aula especial, um diálogo voltado para esta turma.

Como a aula aconteceria entre o almoço e a sessão vespertina do programa oficial, acabei esquecendo dela (eu como... bem... devagar); só percebi que o tinha feito quando passei pela porta e vi a molecada reunida em círculo.

Não querendo atrapalhar o que já havia sido criado ali em termos de confiança e conexão, sentei fora da roda e fiquei só observando. Até que a professora que estava facilitando o encontro propôs um jogo simples que ia ajudá-los a se apresentarem uns aos outros. 

Cada um pegava três cartões com palavras que descreviam qualidades. A tarefa era tentar trocar com os outros até ficar com três que tivessem a ver com você. Ela me convidou a participar e eu aceitei.

O fato de eu não conseguir sacar se alguns adjetivos tinham conotação positiva ou negativa mesmo falando um inglês bem decente me fez pensar no seguinte:

LEAD:

Palavras são mais que uma definição de dicionário. Além do peso que cada palavra adquire de acordo com a bagagem pessoal de cada palavreiro, o uso das palavras carrega um componente cultural muito forte. Fora o fato de que muitas são intraduzíveis -- é quase um pecado tentar fazer essa substituição simplista em alguns casos.

Quando as pessoas me perguntam por que razão eu gosto tanto de estudar e aprender línguas, costumo dizer que é porque com o idioma vem o entendimento do modo de pensar de um determinado povo. Compreender a construção do raciocínio, a gramática, é uma forma de entrar num universo antes totalmente estranho. (E, particularmente, acho fascinante. Espero poder saciar essa fome com muitos sabores diferentes até o fim dessa vida.)

A partir de hoje, no entanto, eu tenho algo a acrescentar à resposta quase que já decorada. É o seguinte: cada vez que eu aprendo uma língua nova, palavras e expressões, é como se eu acrescentasse uma quantidade imensa de novos tons à minha paleta de cores. Essas palavras que não têm tradução, por mais que eu não possa usá-las constantemente num texto em português sob risco de soar pedante -- ou de muitos não compreenderem e ponto final --, me ajudam internamente a entender melhor qual é o sentimento, qual é a sensação, qual é a ideia.

Muita gente pergunta "como é que se consegue" estudar línguas tão diferentes. Acho que não tem segredo, não. Mas é preciso se desgarrar do território conhecido e não tentar relacionar as novidades com a sua língua mãe, por exemplo -- essa é a maior armadilha. É meio que como a vida, no fim das contas. O novo só vem quando se abre mão do velho.

IVOH World Summit 2011

Nos próximos dias, até domingo, fico aqui no interior do estado de NY em um encontro mundial de estudantes e profissionais ligados às áreas de comunicação/artes. O nome do movimento é "Images and Voices of Hope" (IVOH) e se trata, em poucas palavras, da transformação da mídia em agente de benefício para o mundo através da transformação daqueles que a constróem.

No Brasil, temos um braço do IVOH. Em português, chama-se IVE (Imagens e Vozes da Esperança). Somos quatro ou cinco representantes do Brasil neste encontro, nem todos já chegaram. A maioria, é claro, é dos Estados Unidos, onde o movimento é bem forte.

Se houver brechas, vou colocando aqui alguns textos sobre o que será debatido por aqui, no IVOH World Summit 2011.

Foto

O perigo da agenda estragada

Tem um caso clássico que aconteceu numa rádio, certa vez. A história é bem conhecida pelos repórteres do meio.

Durante a jornada esportiva -- ou seja, o programa que vai desde o pré até o pós-jogo --, as rádios gostam muito de colocar no ar o pessoal das antigas para comentar a partida em si ou alguma situação específica. Numa dessas, entrou no ar lá o velhinho. E o âncora, na tentativa de bater papo, ia percebendo que a conversa não rolava. Em um determinado momento, o entrevistador teve a coragem de fazer a pergunta: "Mas o senhor não é o não sei quem que jogou não sei onde?". Resposta: "Não". E mais: o cara que a rádio queria colocar no ar estava bem morto.

Numa outra vez (e eu estava ouvindo essa), o entrevistado em questão deveria ser um blogueiro famoso, mas acabou sendo o porteiro de um prédio.

Conto esses causos por ocasião de uma entrevista que, nos dias tão hypados em que vivemos, entrou na gaveta do "fake" ("falso", em bom português) e está provocando um tumulto razoável neste exato instante.

Segue um trecho do post da blogueira que escreve o Cem Homens

Hoje acordei ao meio dia, como de costume. Abri os emails aqui do blog e vi algumas mensagens falando sobre uma entrevista minha à Rádio Globo, no programa do Antônio Carlos. 
Como dei algumas entrevistas por telefone na última semana, fiquei imaginando se algum repórter havia repassado o áudio para a Rádio Globo. Eu acharia feio, antiético, mas pelo menos seria verdade. 
Entrei no site da rádio e procurei a entrevista. Ela está aqui. [N.E.: Não está mais, já tiraram do ar.]
Meu choque começou quando o entrevistador me chamou de baiana (pois não nasci lá) e começou a sacanear a proposta do blog e a própria entrevistada. Que, quando começou a falar, eu percebi que simplesmente NÃO ERA EU!

Para ler o post completo, clique aqui.

Há enormes chances de ser mais um caso de "agenda estragada". Como o blog em questão é recente, a história cheira a má apuração, mesmo. Vai sobrar pro produtor ou pro estagiário.

Um erro desses, do qual o Jornalismo está cheio, pode atrapalhar a vida de alguém em níveis que o imprudente jornalista não pode imaginar.

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Momento 'tia da 1ª série'. Se você está começando agora, cuide da agenda que vai montar. Duas coisas:

1) um dia, ela vai ficar velha (dica: anote a data da última vez em que usou o número e ele funcionou);

2) antes, durante e depois disso acontecer, cheque, cheque mais uma vez e recheque os contatos que fizer.

Um outro Jornalismo: não é novo; é melhor que isso

Em 2010, em uma dessas co-incidências da vida, conheci um projeto com o qual me identifiquei imediatamente. O IVE é um grupo aberto de comunicadores que têm como meta desenvolver suas atividades profissionais dentro do que poderíamos chamar de olhar apreciativo. Não se trata de ignorar mazelas -- muito pelo contrário -- e, sim, de tratar cada história com a responsabilidade devida e enxergar soluções, esperança, possibilidades de mudança, exemplos que inspiram, a força escondida no meio do que seria, para muitos, total "desgraça", "tragédia", "fim dos tempos".

Nesta semana, o IVE Brasil (o movimento é internacional) lançou um e-book que diz exatamente a que veio o projeto, e orienta a formação de grupos do IVE onde quer que haja demanda para que existam.

Vale demais a atenção, a reflexão e a ação.

Click here to download:
Guia_IVE.pdf (2.12 MB)

No ENTRELACE, o documento está publicado em PDF. Para ver no formato de e-book, clique aqui.

A entrevista de Andrew Jennings na Carta Capital

A Fifa hoje se parece com a Máfia, segundo o jornalista inglês Andrew Jennings

30/06/2010 11:47:04

Paolo Manzo

Andrew Jennings não é um jornalista esportivo, e sim um repórter investigativo. Um
dos melhores na Inglaterra, isso é testemunhado por décadas de colaboração com os principais jornais britânicos e a BBC. Mas principalmente é o pesadelo de Sepp Blatter e da Fifa, aos quais dedicou um livro, Foul! The Secret World of Fifa: Bribes. Vote-rigging and Ticket Scandals (em livre tradução, Falta! O Mundo Secreto da Fifa: Subornos, Compra de Votos e Escândalos com Ingressos), publicado em 2006.

CartaCapital: Por que o senhor é o único jornalista do mundo com acesso proibido nas entrevistas à imprensa com Blatter?
Andrew Jennings: Porque há anos procuro em vão ter respostas do chefe da Fifa sobre corrupção e propinas, baseado em muitos documentos “confidenciais”. Com muita probabilidade cansou-se de não responder e preferiu condenar-me ao ostracismo, o que de certa forma me deixa orgulhoso. Quer dizer que mister Blatter tem medo das minhas perguntas.

CC: Em quanto importa, segundo o seu parecer, a quantia das propinas pagas pela Fifa nos últimos 20 anos?
AJ
: Segundo estimativa do tribunal de Zug, na Suíça, o valor, limitado apenas aos anos 90, é estimado em aproximadamente 100 milhões de dólares. Todo esse dinheiro acabou nos bolsos dos funcionários esportivos que estavam sob contrato, quase todos eles com a Fifa.

CC: Quando o senhor começou a recolher as primeiras provas da corrupção?
AJ
: Trabalhei durante anos sobre o tema corrupção na Fifa, juntamente com um colega alemão. As nossas suspeitas eram fortíssimas, mas não tínhamos provas porque a ISL, a sociedade que geria antes o marketing e em seguida os direitos de tevê da Fifa, era uma companhia fechada. Impossível receber informações transparentes sobre suas operações de balanço. Todavia, quando faliu de forma fraudulenta, seus livros contábeis foram colocados à disposição dos curadores falimentares, bem como dos tribunais. E foi justamente nos tribunais que tivemos a confirmação, com provas, daquilo que suspeitávamos, mesmo se a realidade superava a nossa imaginação.

CC: A corrupção na Fifa como e quando começou?
AJ
: Em 1976, o então presidente da entidade, o britânico Sir Stanley Rous, foi deposto. Ninguém podia corromper Stanley. Em seu lugar entrou o brasileiro João Havelange, que era muito corrupto. Foi ele quem inaugurou o “sistema”, recebendo propinas via ISL.

CC: Sua afirmação é grave. Ela se baseia em quê?
AJ
: Em testemunhos que recolhi de ex-integrantes da Fifa, altos dirigentes. E em documentos.

CC: Havelange chega e traz Ricardo Teixeira. Com qual resultado?
AJ
: Um boom de corrupção. A imprensa suíça escreveu que Havelange e Teixeira embolsaram a maior parte das propinas. No decorrer da transmissão do programa Panorama, da BBC, perguntei em três ocasiões a Sepp Blatter o que ele sabia sobre as propinas embolsadas por Havelange e ele sempre ficou calado. Pedi também informações de uma específica propina, mas também neste caso Blatter fez cena muda.

CC: De qual propina se tratava?
AJ
: De 1 milhão de francos suíços que deveriam acabar nos bolsos de Havelange. Por um erro foram depositados numa conta da Fifa, provocando o pânico entre os dirigentes honestos da organização. Posso garantir que havia três pessoas numa sala da Fifa quando chegou aquele pagamento: Sepp Blatter e outros dois altos dirigentes. Falei com estes, que me confirmaram que o destinatário da propina era Havelange. Um dos dois entregou uma declaração oficial e assinada aos advogados da BBC, na qual afirmava que, em caso de processo por parte da Fifa contra mim e a BBC, ele compareceria no tribunal para confirmar que o pagamento era para Havelange. O mesmo, porém, pediu para não ser citado na reportagem que foi divulgada pela BBC, e que qualquer um pode apreciar na internet.

CC: O pagamento teria sido feito por quem?
AJ
: Pela ISL, no início de 1998.

CC: E o que há em relação a Teixeira?
AJ
: Bastaria olhar os documentos da acusação criminal depositados à margem do processo de Zug. Em relação aos depósitos feitos pela ISL, há um para a Renford Investment Ltd, sociedade controlada por Havelange e Teixeira. 

Aí está a entrevista de Andrew Jennings publicada na Carta Capital. Havia citado e comentado aqui no blog aquela feita pelo Estadão.

Se alguém quiser encontrá-lo por aqui, Jennings será um dos palestrantes do 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji entre os dias 29 e 31 deste mês em São Paulo.

Medo e preguiça vs. Jornalismo (com Andrew Jennings)

O senhor acompanhou a briga do técnico Dunga com a imprensa brasileira?
Não vou comentar o episódio porque não acompanhei de perto. Posso dizer que a imprensa inglesa e a da maioria dos países é puxa-saco. E sem razão para isso. A desculpa é que os editores têm medo de perder o acesso às seleções e à Fifa. Bobagem. Ora, eu fui banido das coletivas da Fifa sete anos atrás e ainda consegui escrever um livro e fazer várias reportagens. A imprensa deve atribuir as responsabilidades às autoridades. Se não fizer isso, é relações públicas. Tenho milhares de documentos internos da Fifa que fontes me mandam e não param de chegar. Por que só eu faço isso?


O que o senhor espera da Copa no Brasil, em 2014?
Há algumas semanas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. Estranhei muito, porque não imagino que o governo brasileiro se recusaria a financiar uma Copa. Vocês são loucos por futebol, estão desenvolvendo sua economia, têm recursos e podem achar dinheiro para isso. Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.

 

Estes são trechos de uma entrevista publicada pelo Estadão com Andrew Jennings, autor de livros sobre corrupção no Comitê Olímpico Internacional (COI) e de um sobre a Fifa, em 2006: "Foul! The Secret World of Fifa" -- infelizmente, não publicado no Brasil. Ao que consta, Jennings prepara outro sobre a mesma Fifa para 2011.

O tema deste breve post é a primeira resposta (a segunda fica aí como bônus) porque ela traduz em poucas palavras o que se passa com o jornalismo não só na cobertura de seleções, da CBF e da Fifa, mas de outros tantos esportes e instituições que os controlam. Será que é tão relevante assim estar em todos os treinos de todos as equipes, acompanhar os passos de cada atleta? Depois de alguns anos de setorismo, quero crer que sim e não.

Sim, se o jornalista entender que o contato diário e pessoal com os objetos do trabalho são essenciais para que seu trabalho de apuração possa ir além. 

Não, se o o único resultado desse tipo de cobertura for: "Fulano marca dois gols no rachão e diz que vai fazer de tudo para buscar a vitória na próxima rodada". Perda de tempo e dinheiro, dá pra fazer o mesmo e mais estando à distância. Com a bunda da cadeira ou ao ar livre, medo e preguiça são as pragas do jornalismo. Fazendo o contrário, Jennings é um dos que se gabam de serem prova disso não sem razão.

Twitter para o bem e para o mal

O que se passa no Haiti, todos nós já sabemos. O tremor de 7 graus na escala Richter cujo epicentro está a mais ou menos 15km de Porto Príncipe aconteceu no dia 12, derrubou a capital e cidades do interior, pode ter matado até 100 mil pessoas e tem sido seguido por outros tremores um pouco mais suaves. O mais importante: com frequência intensa -- e que muitas vezes descamba para o exagero emotivo  -- os meios de comunicação nos têm feito saber do sofrimento e da necessidade de suporte.

Infelizmente, ao mesmo tempo em que serve para dar vazão a muita coisa boa, a internet também é canal de proliferação de falta de caráter e imbecilidades em geral. Entrem neste perfil do Twitter, mas com cuidado (e só coloco o link aqui porque acredito na boa fé dos leitores): @LisandroSuero. Ler um único post é suficiente para saber que a boa intenção deste cara é exclusivamente com ele mesmo -- e é bem torta, ainda por cima. Escrita em caixa alta, pontos de exclamação e uma série de tweets com seu número de telefone e e-mail, convidando as pessoas a entrevistá-lo e procurá-lo. Seu chamariz são fotos impublicáveis da catástrofe alheia, as sobras das agências, que nenhum (ou quase nenhum) veículo divulga.

Talvez nem todos que passam por aqui saibam como funciona o processo de escolha de imagens dentro de uma emissora, jornal, revista ou site. As agências de notícias enviam uma série de fotos para todos os veículos que assinam o serviço; há ali desde as mais poéticas até as mais bizarras, sanguinolentas, assustadoras. Cabe aos editores escolher aquelas que acreditam que seu público deve acessar. No meio disso tudo, uma regra tácita manda que leitores e telespectadores sejam poupados de ver a destruição física do ser humano, seus destroços.

Sigo a regra não por imposição, mas porque entendo que um corpo degradado mexe com instintos muito primários, incomoda e não serve para nada. Resumindo: ver uma cabeça cortada ao meio, um rosto desfigurado não é necessário para motivar alguém a querer ajudar o Haiti -- bastam as informações que chegam. Veja um exemplo aqui. As fotos do NY Times sensibilizam o suficiente sem mostrar pessoas decepadas. E para tirar esta conclusão, nem foi preciso falar do puro prazer mórbido que muita gente tem em ver este tipo de coisa.

O pior é notar que talvez este último grupo esteja se sobressaindo sobre os demais: acessei o tal perfil há uma semana e havia cerca de 500 seguidores. Agora, são mais de 700. Eu sinceramente espero que este post não sirva para fazer a leva crescer.

UM ADENDO antes mesmo de publicar: É preciso trabalhar com limites -- éticos, não necessariamente legais (censura, no caso). Sou a favor de algo que ajude. E só.

TJ-DFT, Hugo Chávez, a censura, a coceira e a janela

sexta-feira, 31 de julho de 2009, 19:25 | Online

Justiça censura Estado e proíbe informações sobre Sarney

Gravações em áudio proibidas revelaram ligações do presidente do Senado com os atos secretos da Casa

BRASÍLIA - O desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), proibiu o jornal o Estado de S. Paulo e o portal Estadão de publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor, mais conhecida como Boi Barrica. O recurso judicial, que pôs o Estado sob censura, foi feito pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

O pedido chegou ao desembargador na quinta-feira, no fim do dia. E na manhã desta sexta-feira, 31, a liminar havia sido concedida. A decisão determina que o Estado não publique mais informações sobre a investigação da Polícia Federal.

Em caso de descumprimento, o desembargador Dácio Vieira determinou aplicação de multa de R$ 150 mil por "cada ato de violação do presente comando judicial", isto é, para cada reportagem publicada. O pedido inicial de Fernando Sarney era para que fosse aplicada multa de R$ 300 mil.

O advogado do Grupo Estado, Manuel Alceu Afonso Ferreira, vai recorrer da decisão. "Há um valor constitucional maior, que é o da liberdade de imprensa, principalmente quando esta liberdade se dá em benefício do interesse público", observou Manuel Alceu. "O jornal tomará as medidas cabíveis."

O diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, afirmou que a medida não mudará a conduta do jornal. "O Estado não se intimidará, como nunca em sua história se intimidou. Respeita os parâmetros da lei, mas utiliza métodos jornalísticos lícitos e éticos para levar informações de interesse público à sociedade", disse.

Diálogos íntimos

Os advogados do empresário afirmam que o Grupo Estado praticou crime ao publicar trechos das conversas telefônicas gravadas na operação com autorização judicial e alegaram que a divulgação de dados das investigações fere a honra da família Sarney.

"Uma enxurrada de diálogos íntimos, travados entre membros da família, veio à tona da forma como a reportagem bem entendeu e quis. A partir daí, em se tratando de família da mais alta notoriedade, nem é preciso muito esforço para entender que os demais meios de comunicação deram especial atenção ao assunto, ‘leiloando’ a honra, a intimidade, a privacidade, enfim, aviltando o direito de personalidade de toda a família Sarney", argumentaram os advogados que assinam a ação - Marcelo Leal de Lima Oliveira, Benedito Cerezzo Pereira Filho e Janaína Castro de Carvalho Kalume, todos do escritório de Eduardo Ferrão.

As gravações revelaram ligações do presidente do Senado com a contratação de parentes por meio de atos secretos. A decisão faz com que o portal Estadão seja obrigado a suspender a veiculação dos arquivos de áudio relacionados à operação.

 

O ponto deste post é simples, não vai muito adiante disto: independentemente de que tipo de jornal seja o Estadão, decisões como esta assustam. Os padrões democráticos sob os quais nasceu boa parte dos jornalistas que estão na linha de frente das redações não condiz com um ato como este. A esperança é que eles (nós) estejam(os), neste momento, se (nos) coçando, se (nos) incomodando, sofrendo, reclamando, fazendo algo contra isto.

Se vira moda...

Hugo Chávez criticava a prisão dos jornalistas venezuelanos pelo governo golpista de Honduras há alguns dias e hoje já aplaude a regulamentação dos "delitos midiáticos" que levariam à prisão na Venezuela, conforme projeto apresentado na Assembleia Nacional. Parte do texto: "toda pessoa que divulgar através de um meio de comunicação notícias falsas que ocasionem a grave alteração à tranquilidade pública será castigada com uma pena de prisão de dois a quatro anos", etc. Por "falsas", fique à vontade para entender "contra o governo chavista".

Por extensão...

Boa parte da imprensa esportiva já estaria presa se aqui fosse a Venezuela e o projeto tivesse passado. A tranquilidade pública dos torcedores vive sendo alterada gravemente durante a janela de transferências para o exterior. Quem a inventou, aliás, devia tê-la pego toda para si.