A entrevista abaixo tem um ou outro trecho a mais do que a publicada na revista ESPN, mas o espírito é o mesmo. Logo depois, estenda o post (clicando no link Read the rest of this post ») para ler os bastidores da entrevista.
“Não dá para comparar um iniciante a um tricampeão no auge”
Bruno é sobrinho de Ayrton, é verdade. Mas, sempre que possível, faz questão de frisar que um não é o outro e vice-versa. Afinal, ele foi treinado para superar comparações. Mais até do que para aguentar as dificuldades no mundo da F-1
Por Vanessa Ruiz
Chegar aos 27 anos sem nunca ter corrido em Interlagos é apenas uma das diferenças entre os dois. Bruno Senna (Lalli) sabe que não vai repetir o tio, campeão pela primeira vez aos 28, e tampouco se importa. É justamente por isso que sua entrevista à revista ESPN não é sobre a relação entre o tricampeão e o aspirante, mas sim sobre a pessoa escondida atrás do laço de sangue. Bruno recebeu nossa reportagem para uma longa conversa em sua casa, algo raro na família que Ayrton tanto preservava. Desarmado, dosou muita autocrítica com bom humor para revelar o que sente em relação à carreira que começa, tardiamente, a construir.
Você toma voltas em todas as corridas. Quão chato é isso?
É a coisa mais frustrante do mundo. Você está na F-1 tentando competir por alguma coisa, mas, ali, sabe que não está brigando com o cara mais rápido, tem simplesmente que abrir para ele passar. Quando vêm seis carros para te passar, você perde um absurdo de tempo, cerca de oito segundos, porque às vezes até tem que ir pra grama para o outro te passar.
Sente que, por ter terminado menos corridas que seu companheiro Karun Chandhok, o time trata você com alguma desconfiança?
A equipe sabe que não terminei em 90% das vezes por causa de quebra mecânica. Em termos de performance, estou melhor que meus companheiros. A única vez em que eu tomei pau mesmo foi na Malásia. Vindo da GP2 e estando havia quase um ano fora das categorias fórmula, senti que, da minha parte, houve falta de performance na corrida. Tomei pau do Karun, fiquei puto da vida e vi que precisava acordar.
Faltou treino, então.
Piada, isso, né? Sem treino não tem como saber o que esperar do carro, você fica sempre com um pé atrás, nunca está confiante de que fará tal coisa no carro e se ele vai corresponder.
Você diz que não comprou sua vaga na Hispânia. Mas o fato de ter levado patrocínio para a equipe não pode ser considerado “comprar uma vaga”? Você recebe salário?
Não, não estou recebendo salário. É uma coisa de interpretação, não adianta eu ficar me defendendo. Já falaram um monte de coisas mesmo. Como eu disse, é preciso tempo para provar as coisas.
O mundo da F-1 é muito desgastante?
Lá é o universo do relacionamento. A maioria dos pilotos que entra na F-1 está ali porque, antes, tinha alguém ali dentro. Nós entramos sem esse tipo relacionamento, sem programa de pilotos, sem empresário que está lá dentro faz tempo. Talvez tenha sido até um pouco de ingenuidade imaginar que tudo aconteceria por mérito: conseguir um teste na F-1, ir bem no teste e seguir em frente. Não é tão simples.
Como tem lidado com algumas críticas que chegam do Brasil?
Comecei a correr tarde. Fui o único trouxa desses moleques que estão correndo hoje em dia que não treinou nada antes de começar a correr. Desde que comecei, os treinos foram ficando mais e mais limitados. Essa é uma das coisas que me fazem olhar para trás e pensar: “Que imbecil, eu podia ter treinado pra cacete e ter começado de uma forma bem melhor, ter feito meu nome logo no começo”. Vivendo e aprendendo, agora não dá para voltar atrás.
O erro foi só seu?
Nunca competi de kart [Bruno parou de correr após a morte do tio, quanto tinha 11 anos]. Quando comecei a andar de monoposto, virava igual aos outros caras e achava que “putz, meu, dá para andar, sim”. Achava que era só sentar no carro e andar no campeonato, mas não é assim, corrida é muito diferente. Comecei a minha primeira corrida tomando um toque de um cara, quase capotando na primeira volta. Quando você não tem experiência, faz merda atrás de merda. No meu terceiro final de semana, em Donington, com a pista meio molhada meio seca, classifiquei as duas vezes em segundo. Mas em uma corrida eu saí da pista e, na outra, terminei em sexto porque não sabia aquecer pneu, não sabia o que fazer na primeira volta, um milhão de coisas que eu não sabia fazer. Aí, os caras vinham querer comparar o cara que estava na terceira corrida da vida dele com o tricampeão mundial Ayrton Senna no auge da carreira. Foi aí que eu desencanei de ler o que as pessoas tinham a dizer a meu respeito porque era só coisa destrutiva.
Está preparado para participar de jogo de equipe?
[respira fundo] O jogo político nas equipes é bem mais complexo do que parece. Tem de tudo: relação pessoal, patrocinador, pontos, campeonato, tem até pressão psicológica. Só que é uma situação de pressão, você tem que tomar uma decisão super difícil e pilotar sem se matar no muro porque você está pensando em outra coisa. E você tem que refletir sobre o que é bom para a sua vida ou o que é bom para o momento. Às vezes, você está em uma situação em que pode ter uma carreira longa e próspera por perder uma corrida talvez de uma forma indigna.
Do que você mais gosta no automobilismo?
Quando faço a pole position é demais. É muito diferente você largar na frente. Agora, quando você larga em 21° e sabe que é o lugar em que vai ficar na corrida toda, você faz o que dá para fazer, puxa o máximo que dá para puxar. Na situação atual, é do classificatório mesmo que eu tiro mais satisfação no final de semana.
O que mudou no seu dia-a-dia desde que você veio de Londres para Mônaco?
Mudou o clima, aqui faz mais sol, tenho mais ânimo para sair de casa e fazer meus treinos de bicicleta. Em Londres era mais maçante, tinha que treinar na academia. A qualidade de vida aqui é bem melhor, sou mais saudável. Em Londres, é uma turma que pega balada mais pesada. Aqui em Mônaco, é diferente o estilo de vida, todo esportista vive em um ritmo legal. Vamos muito um na casa do outro para fazer nada, também. Além disso, aqui eu tenho a Isabel, que cuida de mim e faz comida que eu gosto. Ela trabalhou com o Ayrton quando ele morava aqui e se ofereceu quando soube que eu estava vindo para cá.
Como foi a experiência de sair do Brasil e vir morar na Europa aos 19 anos?
Estava sozinho, só vi alguém da minha família depois de quatro meses na Inglaterra. Foi paulada. Estou reclamando disso, mas imagina na época do Emerson, quando não tinha internet, nada? Tinha que mandar sinal de fumaça para o Brasil para se comunicar com as pessoas naquela época do Ayrton, do Piquet.
Você já consegue se sustentar sozinho, só com o patrocínio, ou tem dinheiro da família?
Eu acho que, neste ano, conseguimos ficar no zero a zero entre patrocínio e família. Não estou com dinheiro para comprar um carro. Estou a pé aqui, seria bom ter uma Scooter. Preciso tirar uma carta de moto.
Na F-1 atual, qual a equipe dos sonhos?
Se fosse para ganhar campeonato, a aposta mais segura é o carro da Red Bull, mas isso não quer dizer que é a equipe dos meus sonhos. É como o time de futebol do coração, aquela equipe que gostaria de correr, aquela coisa romântica, sabe, a preferência pessoal.
Essa equipe tem alguma relação com a sua família?
[risos, muitos risos] Não sei, não falo por que é uma coisa de [pausa] é uma coisa de objetivo. Se eu conseguir chegar, vai ser uma grande vitória, um dos melhores dias da minha vida. Não quero colocar esse caminho em público.
O Ayrton teve duas vitórias marcantes em Interlagos. Como será correr lá?
Nunca corri no Brasil, Interlagos será a primeira vez. Estou louco para que chegue. Vai ser uma doideira.
Quando a Federação Internacional de Automobilismo anunciou quais pilotos participariam da coletiva de imprensa oficial da quinta-feira aqui na Hungria, causou surpresa a convocação de Felipe Massa e Rubens Barrichello, e a não convocação de Fernando Alonso, pivô do escândalo mais recente por aqui.
Protegido? Talvez.
De qualquer forma, as falas dos dois brasileiros foram representativas, com Rubens se dizendo triste pelo que aconteceu com Felipe e Felipe dizendo que está aqui para vencer, que é assim que agirá caso se encontre em situação semelhante à do GP da Alemanha, na semana passada. Ao Lívio Oricchio, do Estado de S. Paulo, o chefe da Ferrari, Stefano Domenicali, contou que houve uma reunião com Massa e que, caso ele esteja para ganhar na Hungria, nada o impedirá.
Uma parte interessante da coletiva foi protagonizada por Rubens Barrichello e Robert Kubica. Questionados sobre a validade da regra que proíbe ordens de equipe, se ela deveria deixar de existir, as respostas dadas por eles foram exatamente opostas e ambas bem fundamentadas (Felipe nada disse e Heikki Kovalainen preferiu ficar de fora do debate):
Rubens Barrichello (Williams) – Não somos nós que devemos decidir. Sempre que disseram que ordens de equipe não deveriam acontecer, outros modos de avisar aos pilotos que deem passagem foram introduzidos. Quanto a isso, você pensa: “Ok, então isso não deve acontecer e o time decide o que vai ser feito”. Eu só acho que nós deveríamos fazer algo para parar com isso porque, no final das contas, podemos entrar num drama aqui. Quando você está correndo, você quer bater o outro, mas não seria legal, eu não me sentiria bem se você me dissesse que vai me dar alguma coisa que vai me fazer mais rápido que o outro e eu vou ganhar. Não gosto disso, nunca gostei e é por isso que fiz mudanças na minha vida, e é por isso que mudei de time e segui em frente. Acredito que está nas mãos dos que estão no topo mudar isso porque você devia ter permissão para correr. Qual é o problema? Se você não ganhar o campeonato por um ponto, que assim seja. Você teve a sua chance e aí você vence o campeonato porque alguém deixou você ganhar? Qual é o ponto? Esse é o meu ponto de vista. Se eu tiver que ser um cara mau e ser campeão do mundo, eu não me importo [com o título]. Eu vou ensinar meus filhos da mesma forma que meu pai me ensinou e estou feliz com isso.
Robert Kubica (Renault) – Não é tão simples, acredito. Nós estamos todos trabalhando para nossos times. Acho que o mais importante, queira você ou não, é o time. Se há uma chance, uma oportunidade para ajudar o time a obter resultados melhores ou o que seja no campeonato, é normal que peçam que você faça isso. E é normal que você atenda e isso é muito simples. Eu sei que nem sempre é tão fácil assim deixar seu companheiro passar mas às vezes é importante para a equipe e é assim que funcionou, que vai funcionar por muitos anos. Ou seja, a não ser que proíbam a ultrapassagem sobre um colega de time, porque acho que é a única regra que vai fazer com isso parar... Foi assim há dez anos, vai ser assim daqui dez anos.
Rubens externou nossos sonhos em relação ao esporte que a Fórmula 1 pode ser, o mundo ideal, aquilo que todos desejamos. Do outro lado, Kubica foi extremamente realista: é muito, muito difícil que as ordens de equipe deixem de existir da forma como as coisas se colocam por aqui, com base em argumentos como carros iguais, time com dois pilotos, pontos em jogo, etc.
Por isso é que seria interessante pensar em outra solução. Em vez de conviver com uma regra fantasia que proíbe completamente as ordens de equipe (já houve várias outras não punidas neste mesmo ano, talvez porque menos escandalosas ou porque nem saibamos que elas existiram), seria mais fácil se regras específicas para o jogo fossem estabelecidas. Aí, seria o caso de viajar na maionese para, através de muita discussão, chegar a algo possível: proibição de troca de posições ordenadas entre os três primeiros, por exemplo.
A liberação total das ordens de equipe tornaria as coisas mais claras, mas o esporte ficaria bem mais chato. Afinal, Barrichello tem toda a razão: qual é a graça de ver uma corrida em que ninguém ataca ninguém, ninguém briga, ninguém é “allowed to race”?
Se alguém tiver uma boa ideia, fique à vontade para compartilhar.