ENTRELACE v2.0 por Vanessa Ruiz

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Dunga

 

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. E o Brasil está fora.

Ontem, quis escrever este post logo após a eliminação do Brasil sem ter lido outros textos. O plano não vingou porque foi preciso ir depressa para a redação. Escrevo agora, já bem menos afetada pela chateação, mas não por isso enganarei vocês dizendo que este texto está isento de juízos. Ele é exatamente sobre a minha experiência com o Brasil nesta Copa.

Não torci para o Brasil. Mas não por opção, não foi uma decisão consciente, estudada. Da mesma forma que não como carne porque não me atrai, a seleção não me atraiu. E olha que eu tentei. Cheguei a ensaiar um namoro no segundo jogo (Brasil 3x1 Costa do Marfim), quando chamei o Dunga de "sogra que atrapalha" num tweet que deve estar perdido por aí.

O que doeu mais na eliminação do Brasil ante a Holanda (2x1) não foi o que aconteceu durante a Copa, mas "a vida inteira que podia ter sido e que não foi". Pausa para o poema:

Pneumotórax (Manuel Bandeira)
Febre, hemoptise, dispnéia, e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.............................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

O que doeu foi o desperdício, a sequência de erros, a tragédia anunciada no ciclo de quatro anos. Cheguei a escrever um post falando que era possível que uma seleção montada na base do "estamos juntos" desse certo. E pela pouca qualidade dos convocados, dá para afirmar que deu muito certo: enfrentou adversários fracos e chegou até as quartas-de-final. Portugal era uma equipe equivalente, um pouco mais fraca, talvez. Ali, o empate bastava. Mas a Holanda -- uma equipe equivalente, um pouco mais forte, talvez --, era preciso vencer.

O descontrole de Felipe Melo, vestido com o uniforme do meu país, me fez sentir vergonha. Todo erro é perdoável. Mas errar com arrogância é digno de pena porque é burrice.

Há muitos brasileiros com talento. No entanto, Dunga optou por aqueles que "estavam com ele". Sentiu-se um homem honrado por isso. Mas uma seleção nacional não é lugar para quem tem como objetivo maior a auto-afirmação diante do seu grande inimigo seja ele qual for. Existem diversas linhas de terapia para resolver esse problema.

Seleção nacional é a congregação dos melhores. Não importa idade, não importa time. Só importa que o treinador consiga fazê-los jogar juntos.

Seleção não é tampouco lugar para pegar experiência. Foi preciso ver Kaká expulso para que o treinador aprendesse. Nos jogos seguintes, Felipe Melo e Michel Bastos foram substituídos antes que levassem o vermelho. Tarde demais e inútil, afinal, o banco nunca ofereceu opção.

Mais triste que ver a seleção cair foi perceber que eu realmente não torci para ela. Pode ser que a proximidade com o futebol tenha me tornado mais exigente. Fato é que fiquei com saudades de outros tempos.

 

Indicação: De todos os textos que li, gostei muito do escrito pelo Caio Maia (às vezes, o chefe é rebelde demais, eu sei, mas não foi o caso aqui).

PS: No final das contas brasileiras, o tango argentino de Manuel Bandeira foi um real consolo para os patriotas inveterados que insistem em odiar os hermanos. Graças a Alemanha. De goleada, ainda por cima.

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Na "boleiragem" e na "parceria", não se espante se der tudo certo

Coerência pode ser tanta coisa. Para simplificar, fiquemos com duas variantes: tomar uma decisão com base no talento, escolhendo aqueles que hoje estão jogando melhor e são frequentemente escalados nos clubes onde jogam, ou, como acredita Dunga, ser fiel. Coerência, para Dunga, é sinônimo de fidelidade. Ou "parceria". 

 
No meu mundo, no seu mundo, no mundo daqueles que querem ver seus melhores conterrâneos selecionados para representar o país numa Copa do Mundo, pode não fazer sentido algum. No mundo deles, faz.
 
"Boleiragem", tuitei mais cedo. Alguns dos escolhidos não são os melhores e talvez saibam disso. É coisa de boleiro: Dunga também tem ciência, mas, por outro lado, tem todos eles nas mãos. São jogadores a quem o treinador deve sua boa campanha no comando do time e jogadores que devem ao técnico sua permanência na seleção. Estão fechados. E é por isso que a boleiragem pode dar certo. 
 
Doni no grupo? A chance de ele jogar é de 0,03%. Não compromete e ainda sinaliza para os demais que Dunga é "parceiro" -- eles gostam demais dessa história de "parceiro. Afinal, Doni segurou a barra do treinador na Copa América. Nada mais justo, nos termos da parceiragem, do que chamar o goleiro que nem no banco da Roma tem ficado. "Dunga não é traíra" é o que você ouviria se, como uma mosca, pudesse entrar na sala de boa parte dos jogadores de futebol que acompanharam a convocação pela televisão.
 
É mais ou menos o que aconteceu em 2002 com Felipão. Romário fora, povo rebelde. Mas, ali dentro, havia segurança. Jogaram por Felipão. Pode ser que para mim e para você Dunga não tenha carisma algum. Só que no vestiário da seleção a história é diferente. Por isso, não se surpreenda se o time que não tem os melhores jogadores brasileiros da atualidade tiver um bom desempenho na Copa do Mundo.

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