Posterous theme by Cory Watilo

Questão de propósito, questão de estratégia

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A voz da estudante, que se diz de Jornalismo, comemora enquanto gravando o vídeo publicado no YouTube: "O Crusp sitiado como nos tempos áááureos da ditadura!". Em seguida, a voz adolescente de dona não identificada diz aos policiais que fazem uma barreira em frente à moradia: "Eu sou mulher! Eu estou sendo violentada!". Oi?

  1. Viúvas? Da ditadura. Pode isso? Poder, pode, mas o tipo de demanda social hoje é outro, o tipo de repressão é outro. A falta de entendimento e a consequente não utilização de uma estratégia condizente vai levar exatamente a... lugar nenhum. Pior: os rebeldes da USP estão, eles mesmos, se fazendo ser motivo de chacota ao redor do país. Parecem presos numa espécie de limbo entre o que têm capacidade de vir a ser e as amarras de um modelo envelhecido.
  2. Que tipo de causa é essa? Se querem que esta luta entre pra história como tantas outras da juventude universitária brasileira, que pelo menos tenham a decência de tirar os olhos do próprio umbigo. A função primária da universidade pública é dar retorno para a sociedade, seja pelas vias formais, seja em consequência do espaço para seres pensantes, de vanguarda, debaterem rumos novos para o coletivo.
  3. Quero crer que a mensagem não foi passada da forma mais eficaz e, sim, o mundo todo ficou achando que este grupo só quer fumar maconha. Que pena para eles, cujos discursos foram impressionantemente desarticulados e vazios. Exemplo: "Queremos uma universidade democrática!". "Universidade democrática" é um conceito tão amplo quanto pedir um "País justo". Quer dizer então que basta tirar policiais do campus para que a Universidade (a academia, os debates, a produção científica, etc) se torne democrática? E o reitor? E o governo? É claro que os estudantes não são burros o suficiente para pensar dessa forma simplista, mas talvez não tenham tido inteligência suficiente para exprimir mais do que isso.

Eles têm o direito de não querer a polícia no campus? É claro que sim, assim como há um outro movimento que não vê motivos para a saída da PM levando em conta as questões de segurança.

Aí, eu me pergunto: por que não levantaram, então, a bandeira de um movimento anti-situação geral da PM? PM truculenta na periferia pode, no campus não? Falta visão, falta mesmo. Que grandes movimentos sociais, intelectuais, a comunidade da USP tem protagonizado nos últimos tempos para se preocupar com a repressão a este tipo de ação? Cadê os alunos e professores da USP enquanto tudo em volta se despedaça? Enfim, a lista de possibilidades de luta é enorme e vai aumentando a sensação de que há uma certa ingenuidade pairando sobre as cabeças dos rebeldes. ---> Legenda: isto é uma provocação E uma cobrança.

Aqui, um texto que pode servir de inspiração para alguém que se encontre perdido.

Não é questão de lado*. Se há criticas ao movimento -- falo por mim --, é porque os estudantes mostraram o tamanho do potencial que têm. Conseguiram chamar a atenção. Que usem este poder em causas que efetivamente mexam com o comando da cidadela e outras que ultrapassem seus portões.

Usar o tempo, a força, a juventude na construção de um país dignamente habitável, coisa que o Brasil é cada vez menos. O país afunda enquanto nossa economia cresce. Levantar a cabeça, ampliar o campo de visão, enxergar as raízes dos problemas e atacar bem ali, usar a ciência que tem do poder que carrega para criar algo maior.

*Aliás, já deu esse negócio de chamar de reacionário quem aponta falhas segundo a sua opinião. Quem não sabe o que a palavra significa e/ou não sabe lidar com críticas tem duas soluções: dicionário e psicólogo.

Um pensamento: Há alguns dias, um amigo educador, atuante em advocacy, me disse assim: "Pode me chamar pra ação social, botar a mão na massa, qualquer coisa. Mas não me chamem pra passeata". É fato que eu me encaixo mais na primeira turma do que na segunda e, isso, depois de muito testar -- fui presidente do Grêmio Estudantil, andei do ladinho do pessoal do PCdoB, e descobri que meu negócio é fazer, não causar. Só que eu vejo que "causar" tem o seu valor. Há momentos em que é preciso chamar atenção mesmo, provocar debates, ainda que gerem rancor. Mas que seja por uma causa maior. Que seja para o bem de mais do que mil pessoas encerradas em necessidades individuais.