ENTRELACE v2.0 por Vanessa Ruiz

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A omissão da Tia Sônia

Dos seis aos dez anos, estudei em um colégio de freiras em São Paulo. Aula com freira mesmo, só tive na 2ª Série: era a Irmã Míriam (que um dia jogou a carteira -- a mesa da sala de aula -- de uma menina bem tonta em cima do lixo com todas as coisas dela dentro, mas eu era pequena e achava que ela era muito boazinha ainda assim porque era uma freira, e me dava aula de teclado e regia o coral).

Dois anos antes disso, eu tinha arranjado um namoradinho. Estava no Pré e o nome dele era Fábio. Entre e idas e vindas, continuamos namorando na 1ª Série também, deixando o menino que gostava de mim, o Grégori, bem desapontado.

Foi aí que começaram os problemas (que não tinham nada a ver com o Grégori). Num belo dia, sem mais nem menos, o Fábio resolveu brincar de uma coisa diferente durante o recreio. O primeiro passo era montar no ombro do amigo dele, o namoradinho da minha melhor amiga que também se chamava Vanessa. Montou. O segundo passo era andar atrás de mim me chutando lá de cima. Andou e chutou.

Infelizmente, isso não aconteceu num só recreio, não. Aconteceu durante vários. Só que o Fábio era um menino muito malandro e só fazia isso junto com o amigo quando não tinha nenhum adulto olhando.

Chegou o dia em que me cansei, é claro -- e acho até que deve ter demorado demais porque crianças costumam aguentar coisas que não deveriam pelo simples fato de ainda não saberem exatamente como medir a gravidade delas. Contei para minha mãe e ela foi conversar com a Tia Sônia, a professora da 1ª F. E olha o que ela disse (ela era beeeem chata, muito rígida): "Sinto muito, mas não posso fazer nada porque nunca vi. Peça para a Vanessa falar com algum inspetor durante o recreio quando isso acontecer".

Se a Tia Sônia não podia fazer nada, quem poderia? Eu até gritava para o Fábio parar, mas não adiantava. Fiquei com medo de contar para os inspetores e eles não fazerem nada, e ainda dizerem que eu estava mentindo como a Tia Sônia quase fez. É claro que o nosso namorinho terminou. Graças a Deus e a mais ninguém, houve um recreio em que o Fábio desistiu de me bater.

E eu decidi contar esta história para vocês por causa desta entrevista aqui, publicada na edição de hoje da Folha de S.Paulo.

São Paulo, quarta-feira, 14 de julho de 2010

Para juíza, proteção não impediria sumiço de Eliza

Ela diz que não podia evitar que a ex-namorada se aproximasse de Bruno

Segundo a juíza, quando Eliza pediu proteção, namoro com Bruno não se caracterizava como relação estável

DIANA BRITO
DO RIO

A juíza Ana Paula de Freitas, do 3º Juizado da Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, afirmou ontem que não se arrepende de ter negado medida protetiva para Eliza Samudio e encaminhado o caso para a 1ª Vara Criminal da região.

Em outubro do ano passado, Eliza, grávida de cinco meses, disse ter sido agredida pelo goleiro Bruno.

A juíza disse que a medida protetiva, prevista na Lei Maria da Penha, não se aplicaria ao caso. Mesmo que se aplicasse, em sua opinião, não seria suficiente para impedir o sumiço da jovem.

Titular da 1ª Vara Criminal de Jacarepaguá, a juíza Telma Fraga encaminhou os autos para a 1ª Central de Inquéritos. O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que recebeu solicitação de parecer, mas negou que nela houvesse um pedido de análise de medida protetiva a Eliza.

Folha - Por que o caso de Eliza não se enquadrava na Lei Maria da Penha? Ana Paula de Freitas - Decidi com base no depoimento de Eliza na delegacia. Ela disse à polícia que "ficou" com o Bruno, que eles tiveram um encontro de natureza sexual e isso não se caracteriza como uma relação íntima, de afeto, estável. Foi um único encontro. Por isso, minha decisão foi de que a competência seria da Vara Criminal.

O fato de estar grávida não lhe garantia a proteção?
A gravidez não transforma o Juizado da Violência Doméstica em juízo competente. Mesmo grávida, é preciso a relação íntima, de afeto. A notícia é que ela ficou grávida nesse encontro e a paternidade ainda teria de ser confirmada por exame de DNA.

Há dois anos, a atriz Luana Piovani conseguiu proteção ao se sentir intimidada pelo ex-namorado, o ator Dado Dolabella. Qual é a diferença desse caso para o de Eliza?
O caso da Luana foi apreciado pelo 1º Juizado da Violência Doméstica. Não tive acesso aos autos, mas a juíza deu a decisão com base no que a delegacia passou para ela. Não sei se ela [atriz] declarou que era namorada dele. Se existia uma relação de namoro, de ex-namorado, o entendimento é que se aplica a Lei Maria da Penha.

A senhora se arrepende de ter negado esse pedido? Se tivesse tomado outra decisão Eliza poderia estar viva?
Não me arrependo. Hoje eu teria dado a mesma decisão. Não indeferi medidas protetivas, não neguei proteção. Só disse que o caso não era violência doméstica e enviei ao juízo competente.
Mesmo que as medidas tivessem sido concedidas, elas proibiriam o jogador de se aproximar dela, não ela de se aproximar dele. E as notícias dão conta de que ela voluntariamente o procurou.
Se foi assim, mesmo com medida protetiva o fato teria acontecido. Tenho cerca de 7.000 processos hoje no Juizado. Nem todas as medidas de proteção são deferidas, muitas por falta de provas, e não podemos prever o que pode acontecer com cada uma das vítimas.

Comments (1)

Jul 15, 2010
Igor Sausmikat said...
Impressionante,como desde outras épocas os meninos já fazem esse tipo de coisa,e você ver o dia de hoje,esse menino que ficou brincando assim com vc Vanessa está lá fazendo outras coisas,exemplo não será!
E o engraçado é todos não fazerem nada por uma atitude ou por omitir algo,aliás tem fatos que acontecem hoje que a palavra "omissão" até continua.
Na minha época de colégio,tinha meninas que não se interessavam por mim,mas não precisava e nem é pra fazer essas atitudes assim,chutando os outros e tudo mais,absurdo e tinha gente que em minhas épocas só faltavam nisso e o engraçado é menino nessa época nos dar conselho do tipo: cai na porrada! é de total absurdo.
Quando vi a história,fiquei chocado com a que vc andou passando Vanessa.E pior que hoje no colégio se você perguntar pra alguém lá,a mesma coisa acontece.A sorte é que ele parou de te bater,já pensou se ele continuasse?foi por Deus e mais ninguém como você mesmo disse Vanessa Ruiz!
e as histórias tirando suas proporções claro que são comparadas com o caso de hoje.Ainda bem que se achou os culpados e tudo mais.E hoje jogador de futebol também deveria se policiar por causa disso,muitos acabam vendo,afinal pra muitos não se passam na cabeça que eles ou seja alguns fazem esse tipo de coisa.
Posts sempre muito legais,fazem refletir um pouco mais.
Jogadores de futebol são poucos que dão realmente exemplo,dar exemplo é diferente de ser santinho.ou estou errado?
O teu caso que você passou,pra ver que desde quando estamos na escola tem mãe e pai que educam filho de forma machista e tudo mais,são poucos que educam realmente de verdade(sem julgar ninguém).Pra ver que muitas coisas de hoje,são totais berços.E o pior é aquele que vai na influência de amigos pra cometer tais coisas,um absurdo!
e nesse caso entra outras questões que são enormes e ficaria até amanhã dizendo!
beijos Vanessa!!!!
Igor

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